Nas mãos de uma parteira tipicamente nativa da Vila de Ponta Negra, na zona sul de Natal, nasceu Maria das Graças Costa da Silva, no dia 14 de maio de 1949. Naquela época, o nome “vila” fazia mais sentido do que hoje. Onde existem atualmente prédios, ruas pavimentadas e muitos turistas circulando, já foi um lugar cuja base de sustento da comunidade era a pesca, a agricultura e a renda de bilro. Contam os mais antigos, como a rendeira Maria Helena Correia dos Prazeres, que naquela época a pesca ficava para os homens e a renda de bilro para as mulheres. Com Maria das Graças não seria diferente.
Aos 13 anos de idade, ela começou a fazer renda de bilro. Aprendeu com a mãe, que aprendeu com a avó dela. Ela e Maria Helena saíam juntas de casa, com a renda que produziam, para fazer dinheiro. Elas iam a pé, para o centro da cidade, no intuito de vender o produto. Desde então, Maria das Graças vinha vendendo sua renda de bilro, coisa que só parou de fazer quando foi internada no hospital, com um tumor no pulmão que a levou à morte no dia 31 de dezembro de 2008, dois meses após a internação. Ela se foi com 59 anos. “A comunidade inteira da Vila de Ponta Negra não teve réveillon”, conta a filha de Dona Maria das Graças, Andréia Regina Costa da Silva.
Nos quase 60 anos de vida de Maria das Graças há muito a dizer sobre sua dedicação à renda de bilro. Há nove anos, ela se juntou a Maria de Lurdes de Lima e Maria Helena dos Prazeres. Na união dessas três Marias surgiu uma idéia tão radiante quanto a constelação: desenvolver um projeto que propagasse a tradição da renda de bilro. Com pouco tempo, 15 pessoas juntaram-se à causa, entre homens e mulheres, iniciando a luta pela sobrevivência da cultura da renda na Vila de Ponta Negra.
Com a evolução do projeto, as rendeiras procuraram apoio da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado. Maria das Graças e suas companheiras correram atrás de incentivo e é por causa delas que a arte da rena de bilro recebe o patrocínio da Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo. “É um trabalho difícil resgatar a renda aqui na comunidade”, comenta Andréia Regina. Através do apoio, as rendeiras já ministraram vários cursos e venderam seus produtos na Feira Internacional de Artesanato (Fiart). Até em navio as três Marias já estiveram.
“Minha mãe viajou para vários lugares defendendo a renda. Ela foi a Cuiabá, João Pessoa, Brasília, São Paulo. E os trabalhos chamaram interesse até fora do país. Tem trabalhos que elas exportaram para a Alemanha, Inglaterra, Portugal”, afirma Andréia Regina.
Segundo a filha de Maria das Graças, mais para o fim da vida, a mãe decidiu se dedicar apenas à renda de bilro. Mesmo quando estava trabalhando no “Quiosque do Simplício”, o número quatro do calçadão da praia, Maria das Graças na largava a renda de bilro. Não é a toa que a comunidade parou com a sua morte. As rendeiras parecem ter se desestimulado com a perda da companheira.
“Fazemos pelo amor que temos à renda. Mas esse trabalho vai se acabar. O pessoal tá indo embora. Só quem sabe agora é o pessoal mais antigo, e esse pessoal tá indo. As novas gerações não querem mais saber da renda”, avalia Dona Maria de Lurdes.
REDE
Como sua última obra de arte em renda, Maria das Graças se propôs a fazer um projeto audacioso. Ela queria fazer uma rede de renda de bilro. Alguns não acreditaram, tendo em vista o tamanho que o produto teria. Para fazer algo tão grande, é preciso muito tempo.
Porém, em torno de março de 2007, Maria das Graças começou seu projeto, que durou um ano e oito meses. Pelo trabalho e pelo material utilizado, o preço estimado de um produto como esse é de R$ 1.500. “Mas as pessoas não dão valor à renda. Ela passou muito tempo fazendo e ninguém sabe disso”, argumenta a filha. Com o dever cumprido, Dona Maria adoeceu, ficou internada por dois meses no hospital e faleceu, deixando a rede de lembrança. Com ela, a saudade.
*matéria publicada no Diário de Natal.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
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